Ômega-3: a deficiência que quase ninguém percebe.
- Murillo Monteiro
- 7 de jul.
- 4 min de leitura

Quando pensamos em deficiência nutricional, normalmente lembramos de vitaminas e minerais.
Pouca gente imagina que um dos nutrientes mais importantes para a saúde cardiovascular, cerebral e metabólica também costuma estar presente em quantidades insuficientes na alimentação de grande parte da população.
O ômega-3, especialmente nas formas EPA (ácido eicosapentaenoico) e DHA (ácido docosahexaenoico), é um exemplo disso.
Uma análise que reuniu dados de diversos países mostrou que, em grande parte do mundo, a ingestão média de EPA e DHA está abaixo dos níveis recomendados por algumas sociedades científicas para adultos saudáveis. Isso não significa que todas essas pessoas apresentem uma deficiência clínica, mas indica que o consumo desses nutrientes frequentemente é inferior ao considerado ideal.
Embora essa baixa ingestão raramente provoque sintomas imediatos, ela pode representar a perda de um importante fator de proteção para a saúde ao longo dos anos.
O que são EPA e DHA?
EPA e DHA são ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa da família ômega-3.
Eles são encontrados principalmente em peixes de águas frias, como:
• salmão;
• sardinha;
• cavala;
• arenque;
• atum.
Esses nutrientes fazem parte da estrutura das membranas celulares e participam de diversos processos fisiológicos relacionados ao funcionamento do coração, do cérebro, da retina e do sistema imunológico.
Embora o organismo consiga produzir pequenas quantidades de EPA e DHA a partir do ácido alfa-linolênico (ALA), presente em alimentos de origem vegetal, essa conversão costuma ser limitada. Por isso, a alimentação continua sendo a principal fonte desses nutrientes.
O que acontece quando a ingestão é baixa?
Na maioria das pessoas, a baixa ingestão de EPA e DHA não provoca sintomas específicos.
Na prática clínica, ela costuma passar despercebida e não aparece como uma doença isolada.
No entanto, quando o consumo insuficiente faz parte de um padrão alimentar pouco saudável, o organismo pode deixar de receber os benefícios associados à ingestão adequada desses ácidos graxos.
Diversos estudos observacionais associam o consumo regular de peixes ricos em ômega-3 a melhores desfechos cardiovasculares dentro de um estilo de vida saudável.
Isso não significa que o ômega-3, isoladamente, seja capaz de prevenir doenças ou substituir outros cuidados importantes, como alimentação equilibrada, atividade física, controle da pressão arterial, colesterol e glicemia.
O ômega-3 ajuda no controle da inflamação?
Sim, mas é importante entender como isso acontece.
EPA e DHA participam da formação de substâncias conhecidas como mediadores especializados pró-resolução, moléculas envolvidas na regulação da resposta inflamatória do organismo.
Em outras palavras, eles ajudam o corpo a encerrar adequadamente processos inflamatórios quando isso é necessário.
Esse efeito faz parte da fisiologia normal e não significa que o ômega-3 funcione como um anti-inflamatório ou que sua suplementação seja indicada para qualquer pessoa.
O ômega-3 reduz os triglicerídeos?
Sim.
Esse é um dos efeitos mais bem estabelecidos na literatura científica.
Em pessoas com níveis elevados de triglicerídeos, doses terapêuticas de EPA e DHA, prescritas pelo médico, podem reduzir significativamente esses valores.
Entretanto, níveis elevados de triglicerídeos possuem diversas causas, como excesso de peso, alimentação inadequada, diabetes, consumo excessivo de álcool, fatores genéticos e algumas doenças.
Por isso, um exame alterado não significa, necessariamente, que exista baixa ingestão de ômega-3.
Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Todo mundo precisa suplementar?
Não.
Esse é um dos maiores equívocos quando o assunto é suplementação.
Nem toda pessoa apresenta baixa ingestão relevante, nem toda baixa ingestão exige suplementos e nem todas as doses produzem os mesmos efeitos.
A necessidade depende de diversos fatores, entre eles:
• frequência do consumo de peixes;
• padrão alimentar;
• histórico clínico;
• presença de doenças cardiovasculares;
• níveis de triglicerídeos;
• uso de medicamentos;
• objetivos do tratamento.
Em muitos casos, aumentar o consumo de peixes ricos em ômega-3 já é suficiente.
Quando isso não é possível ou quando existe uma indicação clínica específica, a suplementação pode ser considerada, sempre com orientação profissional.
Existe uma dose ideal?
Não existe uma dose única para todas as pessoas.
Diversas sociedades científicas recomendam, para adultos saudáveis, uma ingestão diária em torno de 250 a 500 mg de EPA e DHA, preferencialmente por meio da alimentação.
Já pacientes com condições específicas, como hipertrigliceridemia, podem necessitar de doses maiores, sempre prescritas e acompanhadas por um médico.
Por isso, utilizar suplementos por conta própria nem sempre traz benefícios e pode não ser a estratégia mais adequada.
Alimentação continua sendo a base
A melhor forma de obter EPA e DHA continua sendo o consumo regular de peixes ricos em ômega-3.
Quando esse consumo não atende às necessidades individuais, o médico pode avaliar se existe indicação para suplementação, considerando exames, histórico clínico, padrão alimentar e objetivos do tratamento.
Na medicina baseada em evidências, suplementos não substituem hábitos saudáveis.
Eles complementam uma estratégia terapêutica quando realmente existe indicação.
A baixa ingestão de EPA e DHA é comum em diferentes regiões do mundo e, na maioria das vezes, passa despercebida porque não provoca sintomas específicos.
Isso não significa que todas as pessoas precisem de suplementação.
O mais importante é compreender que as necessidades variam de acordo com a alimentação, o estado de saúde e os objetivos de cada indivíduo.
Na prática clínica, a decisão de suplementar deve ser individualizada e baseada em evidências, considerando o contexto de cada paciente.
Porque saúde não se constrói com soluções universais.
Ela é resultado de escolhas bem orientadas, sustentadas pela ciência e mantidas de forma consistente ao longo da vida.



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